Existem situações onde uma boa e guerreira solteira precisa mostrar ao mundo á que veio.
Tem uma hora que tudo o que se deseja é uma tarde livre. Livre de verdade. Livre da mãe, do vizinho chato, da operadora de telemarketing, e até livre do pensamento que te prende ao instrutor gato da academia. Afinal é por causa dele que você realmente precisa estar livre.
Precisa usar aquele pijama de florzinha que sua tia gorda te deu no natal em que estava na sétima série, com um papel já meio amassado de ficar embaixo do colchão e que todo mundo sabe que o pijama foi usado por ela em algum momento e ela viu que realmente não servia. Que ficava torando a dobra da coxa quando deitava de ladinho. Enfim precisa daquela roupa que não tem vestígio nenhum da cor ou da aparência original.
Depois de meio expediente de trabalho aquele chefe moreno e gato enfim reconhece que anda trabalhando muito e finalmente concede uma tarde de folga. Mentira dele. Dá pra ver na sua cara que o dia está um saco. Que você não está nada bem. Parece uma forte virose e que a qualquer momento você pode contaminar alguém ou acabar matando alguém num surto psicótico de mau humor já estampado na sua testa.
Passar na locadora, alugar um filme do Richard Gere ou Russell Crowe com trilha sonora de morrer é a primeira tarefa. Chegar em casa, trancar ainda mais as portas e janelas, pra ninguém pensar que existe alma vivente nela. Colocar uma boa caçarola de leite condensado com chocolate em pó no fogo, fazer aquele um brigadeiro arremata as primeiras necessidades.
Mesmo que não estiver frio, vale pegar aquele edredom gostoso e fofinho que já segurou muitas lágrimas há anos. Esparramar-se no tapete da sala esperando que o mundo acabe em silêncio para não atrapalhar os pensamentos. E principalmente comer às colheradas o brigadeiro caseiro, afinal o bom de ser solteira é se empanturrar de açúcar e gordura sem ter ninguém buzinando no ouvido frases inconvenientes.
Um flashback passa pela cabeça entre uma cena e outra. E vozes vêem nitidamente a mente: ‘cachorro!, porque ela?, ele faz aquilo com todas!, é só na sua cabeça!...’
No dia seguinte com os olhos fundos de não dormir, e com mal estar por causa das duas latas de leite condensado que viraram brigadeiro, a decisão mais sensata é cancelar a academia. Depois que se recuperar e resolver voltar, o melhor é buscar outro lugar com profissionais competentes. Também depois daquela cena lamentável do professor gatão te deixar falando sozinha no Elíptico e ir logo dando em cima da aluna novata que mais parece madrinha de bateria da Unidos da Ninfeta não se têm muitas opções a considerar. Uma conversa com ele? Nem pensar, afinal nunca acertaram nada, nunca nem saíam, nem trocaram telefone. Mas no fundo sabe que ele é muito afim de você. Uma mão apóia-se no seu ombro e uma voz firme diz: ‘- que bom que você chegou, vamos começar logo. Hoje estou novamente disponível só pra você, preparei uma série de exercícios que você vai amar. Passei minha sobrinha pra outro instrutor não é bom misturar as coisas aqui no meu ambiente de trabalho, não acha?’.
Ufa! Você pensa. Enche e solta o ar dos pulmões como se fosse o ultimo suspiro. E com a voz tremulando: ‘-Então ela é sua sobrinha, que bom! Ela é linda!’.
Mas no pensamento continua: ‘-que história é essa de não misturar as coisas no trabalho?
Pronto. O lucro foram 800 calorias a mais, um ponto a menos com o chefe e a certeza que seu instrutor gato é um ótimo profissional e que não está afim de ficar com você.
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