terça-feira, 22 de março de 2011

vida de solteiro


Crônicas de um Solteiro
Sabem o porquê inventaram estes mercados vinte e quatro horas? Pode-se até imaginar que é para suprir algumas eventualidades ou para aqueles que trabalham muito, não têm tempo pra fazer as compras do mês, pois não podem passar duas horas empurrando um carrinho de metal, frio e sem um pingo de bom gosto no design, que só se interessa na verdade é no dinheiro que você vai gastar para entupir sua casa com materiais que você nem sabe se precisa e que você tem certeza que vai acabar jogando fora. Como aquele queijo Roquefort que fica sempre um pedaço que ninguém come, mofa e você joga fora com muita pena, afinal custaram os olhos da cara. E porque não comê-lo?, uma vez que o queijo­ Roquefort fede tanto que parece que vem podre.
Mas o caso não é esse.
Esses lugares foram feitos na verdade para solteiros que não tem nada melhor a fazer pra passar o tempo, fingir que se cuidam e que se importam com a limpeza da casa.
            Numa dessas noites, de insônia transcendental, um desses sujeitos entra num desses mercados que afirmam estar aí pra te servir, mas na verdade estão prontos pra te sugar até o ultimo centavo, principalmente nesses momentos de vulnerabilidade.
O cara entra e demora quase quinze minutos pra escolher o  carrinho.
Pega um carrinho: grande demais, outro: pequeno de mais. A roda também influencia. Sobe até a metade da rampa e volta, dessa vez é o barulho do metal que incomoda, afinal está rangendo de maneira diferente.
Enfim, acha um certo, parece encaixar entre seus dedos.
Na primeira gôndola para, esvazia os bolsos. Tira moedas, clipes, papel do estacionamento, papel velho, que parece que foi lavado umas duas vezes junto com a bermuda caqui, que combina com a sandália de couro cru, coça a cabeça. ‘- Esqueci!’ Enfim tenta mais uma vez. Encontra uma pequena lista contendo não mais que seis itens.
Vai se dirigindo ás gôndolas mais ao fundo, parecendo que conhece o local ou tem afinidade com a logística de supermercados. O telefone toca. O semblante do rosto se alegra, entre uma palavra e outra surgem risos espontâneos. Não que ele seja um desses caras que gostam de aparecer ao celular, muito pelo contrário, enquanto fala, põe o telefone mais próximo à boca para não falar muito alto. Para ouvir é lógico, põe no ouvido.
A conversa se estica e vai ficando mais gostosa.
Esmera-se para conseguir o produto certo como se a mãe fosse brigar se levasse algo que não está na lista. Mas não tem como não ser criterioso. Afinal se lê: ‘sapólio da tampa azul, cera brilha fácil incolor da embalagem azul, extrato de tomate cica do pote grande, guarda-napo de papel duplo snob, soda cáustica diabo verde, lustra móveis poliflor’.
Quem fez essa lista? A tiazinha que mora de favor na casinha dos fundos, ou a diarista gentil que não gosta de trabalhar com materiais vagabundos? Isso também não vem ao caso.
O fato é que um homem, viril, bonito, trabalhador e com muitas outras qualidades às quais desconheço faz compras pela madrugada sem a menor pressa de ir embora por não tem nada melhor pra fazer, nem jogar Playstation.
Ao telefone outra bizarre, uma suposta namorada dicas pro cara de onde podem estar os produtos.
O detalhe é que a mina fala de um lugar que eu sinceramente pensei que nem existia telefone... a garota tem celular, e funciona, no Acre....
Parece que a ajuda é eficaz, dar-se a entender que ela sabe dessa necessidade dele de passa um tempo procurando o mesmo item, mas oito minutos procurando o sapólio, já é demais, não acham? O problema é que enquanto ela dá dicas valiosas ele se empenha ao máximo para achincalhar o organizador da sessão. Entre um palavrão e outro, pode-se ouvir: ‘- num acho, num acho, sem lógica isso!’
Depois de encontrar os itens logicamente colocados estrategicamente escondidos como o lustra móveis poliflor e a cera brilha fácil incolor da embalagem azul, ele parte para as compras que lhe dão realmente prazer, comida. Pois ninguém é de ferro. Numa lista de solteiro não pode faltar coisas básicas: miojo, hambúrguer, rufles, tekitos, um pacote de arroz, para parecer normal, e massa fresca pra canelone com tomates frescos,o homem é chique!
Em matéria de comida ele parece entender, ou coloca no carrinho aquilo que encontra primeiro. Na lista imaginaria de comida não se tem muito critério, o que estiver no caminho e que não tem muito tempo de preparo vai pra casa.
Depois de muito insistir, a garota do outro lado do telefone, e da galáxia, diz pausadamente:  ‘- chama o carinha de uniforme e pede à ele pra te informar onde está!’
E em menos de um minuto depois de falar com o repositor ele encontra o tão produto escondido: o arroz!
A caminhada até o caixa é silenciosa e com um semblante triste. Enquanto ele põe a mercadoria na esteira analisa cada item para não ter menhum erro. Não liga para o valor, paga. Mas quando a atendente diz: ‘-boa noite e volte sempre’. Ele pega o carrinho, entulhado de coisas e vai pra casa com sorriso de La Gioconda pois sabe que essa brincadeira havia acabado, mas pode sempre contar com o mercado vinte e quatro horas para suprir qualquer necessidade. E até amanhã!

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